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Escorpião direto na língua: um mergulho na poesia da carne e da memória

  • Foto do escritor: Editora Pedregulho
    Editora Pedregulho
  • 3 de mar.
  • 4 min de leitura

Alguns livros nos tocam de maneira sutil, outros nos atropelam com a força de um trem desgovernado. Escorpião Direto na Língua, de Ediphôn Souza, pertence ao segundo grupo: uma obra que não pede licença para entrar no leitor, mas se impõe, ardendo como a ferroada do animal que dá nome ao título. Aqui, a poesia não é apenas escrita – ela é vivida, sangrada, cuspida e, acima de tudo, sentida.


Forma e estilo: uma escrita sem amarras

Souza não se prende a estruturas rígidas ou métricas previsíveis. Sua escrita tem um ritmo próprio, como uma conversa íntima consigo mesma, cheia de pausas, repetições e quebras que evidenciam a oralidade e o fluxo de pensamento. A diagramação, com versos que por vezes se espalham de maneira fragmentada, reflete uma subjetividade inquieta, sempre em movimento.

O título, Escorpião Direto na Língua, já anuncia o tom do livro: trata-se de uma poesia que não teme a dor, que se joga no abismo das emoções e emerge mais forte. O próprio poema que dá nome ao livro (p. 42) encapsula essa essência:

Mas te perder jamais. E mesmo se eu te tivesse aqui comigo como eu quero, eu teria que desistir de mim de maneira irresponsável e até irrevogável. Não dá. Simplesmente não dá. Sou egoísta a ponto de enganar a fome que tenho de ti pra não dar chance de sentir dor onde ainda não senti. Tenho pavor a dor e você tem o potencial de me causar a dor de uma picada de escorpião direto na língua.

Aqui, o amor e a dor andam de mãos dadas, e o desejo convive com o medo de se perder no outro. O eu lírico se debate entre o impulso da entrega e a necessidade de autopreservação, um dilema recorrente em toda a obra.



Temas: identidade, corpo e afetividade

Os textos de Souza são atravessados por questões identitárias, especialmente ligadas ao corpo e à existência LGBTQIAPN+. Em Na Zona (p. 11), por exemplo, o eu lírico reivindica o direito à fragilidade e expõe a luta constante contra um mundo que insiste em reduzir sua existência a estereótipos e limitações:

(...) Então repita comigo Elu, ela, elu, ela Eu sou a elu, o ela, a elo que mantém tudo isso que vê na performance viva de alguém despida.

A repetição das palavras elu e ela reforça a luta pela afirmação dos próprios pronomes, um tema recorrente em debates sobre identidade de gênero. Ao mesmo tempo, a poesia de Souza não se limita ao campo político – ela também se permite ser íntima, sensorial, erótica. Em Acarajé (p. 14), o desejo aparece disfarçado de metáfora culinária:

Viciei em teu sabor, seus temperos de nomes tão regionais quanto ancestrais, te comeria três vezes ao dia por toda a minha vida, mesmo que isso me trouxesse questões cardiovasculares (...)

O humor sutil da última linha não suaviza o tom apaixonado do poema – pelo contrário, o realça. O desejo é voraz, consumista, quase irracional.



Espaços e deslocamentos: entre o lar e o exílio

Os lugares têm um papel fundamental na construção dos versos de Souza. O livro transita entre diferentes geografias – das ruas de Ouro Preto às praias da Bahia, de ônibus urbanos a viagens de bicicleta. Há sempre um deslocamento, seja físico ou emocional. Em Mergulho (p. 19), essa mobilidade se torna quase um ritual:

Ouvindo Gal com o vento soprando os poucos azuis que me restam (...) De roupa Quero Mergulhar Em Você

A imagem do mergulho funciona tanto como metáfora para o desejo quanto para o abandono de si mesma, reforçando a entrega que permeia o livro.

Dor que salva (p. 17) traz uma reflexão sobre a Bahia como um espaço de pertencimento e libertação:

Aqui eu aprendi a boiar, aprendi a pular, e desde então pude perceber que é mais fácil aprender do que desaprender, então me diz porque aqui onde estou agora eu já não consigo fazer as mesmas coisas, (...)

O contraste entre o e o aqui evidencia o sentimento de exílio que marca a obra. O eu lírico encontra um lugar onde pode ser quem é, mas esse lugar não é permanente – há sempre a sensação de que o pertencimento é efêmero.



A relação com a memória e o tempo

O livro também dialoga com o passado e a memória afetiva. No poema Primeiro Vestido (p. 31), por exemplo, a experiência de comprar um vestido se torna um marco na afirmação da identidade de gênero:

Tremia Como iria experimentar um vestido

A hesitação inicial se transforma em triunfo ao final do poema, quando o eu lírico veste a peça com orgulho. Esse resgate de momentos importantes da vida confere à obra um caráter quase autobiográfico, como se cada poema fosse um fragmento de um diário emocional.



Um livro para sentir na pele

Escorpião Direto na Língua não é uma leitura para quem busca poesia convencional ou sentimentalismo fácil. É um livro que exige do leitor a mesma entrega que a autora demonstra em seus versos. Cada poema é um convite ao confronto, seja com as próprias dores, desejos ou fragilidades.

Com uma linguagem que oscila entre o coloquial e o poético, entre o grito e o sussurro, Ediphôn Souza constrói um livro que não apenas fala sobre identidade, afeto e resistência – ele é identidade, afeto e resistência.

Se você deseja uma poesia que não teme a verdade, que te faz repensar a forma como habita o mundo e que, no fim, te deixa com o gosto de querer reler cada página, Escorpião Direto na Língua é um livro indispensável.



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Escrito por Marília Cafe para a Pedregulho.

 

 
 
 

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